quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cuestión de independencia – con palomitas de maíz (questão de independência – com pipoca)

Para usar uma fórmula jornalística, voilà, o gancho será uma data comemorativa.

Para flexibilizar o foco, a relação pode se desenrolar da seguinte maneira: o sete de setembro sempre levanta o questionamento da independência. A data histórica remete à atualização das nossas dependências e nos lembra os direitos humanos.

Para inovar, por que pensar em Brasil? Isso seria óbvio. Vamos falar então da Argentina, já que seus duzentos anos de independência rendem uma reflexão similar e pode ser embasada por produções cinematográficas inspiradoras...


O que importa no argentino “La historia oficial” (1985), é o roteiro. Para não desconsiderar a direção, que inclui a cativante atuação de Analia Castro, a garotinha que faz papel de filha, são ótimas sacadas as metáforas visuais quase explícitas sobre episódios da ditadura.



Mas o conteúdo, escrito pelo também diretor Luis Puenzo, em parceria com Aída Bortnik, rendeu o Oscar de melhor filme estrangeiro à película hermana.

O enredo mostra a vida de uma professora de história (Norma Aleandro) fechada em seu próprio mundo, vivendo de acordo com o estilo de vida do marido (Héctor Alterio). A relação conjugal é abalada pelo questionamento da mulher sobre a adoção da filha, que pode ter sido roubada de presos políticos durante a ditadura militar.

A tomada de consciência no filme se dá pelo contato com a história “não-oficial”, vinda à tona com as reivindicações públicas das “abuelas de La Plaza de mayo(episódio real e cujas protagonistas reivindicam até o prêmio Nobel da Paz - !) e incitada em sala de aula pelos próprios alunos. A presença de um professor de literatura mais esclarecido, que quase rende um pouco de romance no filme, também ajuda, além de uma amiga que retorna do exílio político.




O espectador presencia a mudança no ponto de vista da protagonista, que é um conflito psicológico dramático e envolvente. A atriz se encontra em uma posição em que a busca pela verdade certamente acarretará conseqüências, para as quais a preparação se dá durante a própria busca, não é prévia.

A divergência ideológica entre pai e filho, o dinheiro que compra o posicionamento e a separação histórica de vencedores x perdedores são questões levantadas pelo filme, merecedor de atenção mesmo sem premiação.

Em abril deste ano, quando o argentino “o segredo de seus olhos” (2009), do Campanella, rendeu ao país seu segundo Oscar de melhor filme estrangeiro, o Editorial da edição argentina da Le Monde Diplomatique tratou sobre os dois filmes e a relação com os direitos humanos.

Carlos Gabetta, também vítima da ditadura, expõe em um texto rico os sentidos de ambos os filmes e suas relações em contextos históricos diferentes. O artigo é intitulado “derechos humanos, pasado y presente” – um ótimo recorte temporal (o texto está em espanhol, mas é de fácil compreensão).

Um comentário: