No post passado, a Bárbara levantou a questão da "pergunta-teste". Esta prática muito observada e sofrida por calouros universitários é um reflexo do senso comum de que o conhecimento é aprendido, e não socialmente construído.
Nós, muitas vezes obrigados a responder "peguntas-teste", também muitas vezes aplicamos "perguntas-teste". Alguém concorda?
Nossa educação, totalmente voltada para a formatura no ensino médio, aprovação no vestibular e ingresso na universidade - ou faculdade, ou cursos voltados para a formação técnica que melhor nos prepare para o mercado de trabalho - nos condiciona para o pensamento ilusório de que, com certeza e sem sombra de dúvida, aquele que possui um diploma é detentor de todas as "respostas-teste".
Mas esta expectativa é frustrada quando se tem a perspectiva de dentro desses cursos. Quem consegue chegar ao ensino superior tem a compreensão, ou pelo menos tem acesso a leituras básicas para a reflexão crítica deste senso comum.
Quem não percebe que a faculdade não nos ensina a consumir todos as informações publicadas pelo meios de comunicação para estar informado sobre o que se publica, ou, em uma perspectiva mais positiva e menos mecanicista, a realmente praticar os recursos das técnicas de apuração e busca pela informação para que se construa uma visão sobre o que ocorre na sociedade? Apesar de ser o debate e o despertar da criticidade um dos motivos para a nossa luta pelo reconhecimento do diploma - pelo menos, assim creio eu.
Mas nós mesmos referendamos o senso comum, continuando a reproduzir a segregação do conhecimento, dependendo da finalidade do impulso de sermos sabichões. Mesmo no interior do conhecimento científico, a divisão entre humanas e biológicas - e a mais radical entre estas e as exatas - nos leva a crer que um estudante de veterinária poderá dar respostas mais "exatas" que um estudante de jornalismo, possivelmente porque um não questiona as noções com as quais tem contato nos livros, e o outro, sim.
E, por mais que saiamos debatedores e críticos dessa realidade social, estamos sujeitos à grande mídia que, no olhar do consumidor e elaborador de "perguntas-teste", produz uma informação da qual devemos estar cientes e que representa a detenção do conhecimento.
Isso se reflete em práticas ainda após a graduação, quando quase sempre nos apoiamos sobre artigos jornalísticos para afirmar uma percepção, sendo que estas produções jornalísticas (os artigos) não necessariamente refletem uma opinião pública, mas ajudam a mobilizá-la.
O filósofo argentino
Néstor Kohan, conseguiu reunir as
noções de verdade presentes na história, que baseiam os nossos entendimentos, inclusive sobre a prática acadêmica e o conhecimento científico. Segundo ele, os meios de comunicação estão aí para influenciar a nossa noção de "verdade por correspondência", já sistematizada por Aristóteles, que consiste na consonância entre o que se diz e o que se observa, o que se passa na "realidade".
Ainda quando se busca o reconhecimento da comunicação como conhecimento científico, se está apenas procurando afirmar toda esta lógica da "pergunta-teste".
Afinal, me assutaria um elaborador de perguntas-teste que tomasse como verdade a resposta de um estudante de jornalismo, ou qualquer outro, sem uma réplica.